Outro dia, fazendo uma limpeza aqui em casa acabei encontrando minhas apostilas dos tempos de cursinho. Acho que foi a época em que eu mais escrevi. O texto anterior é daquela época e esse que vem agora também.

 

 

- Logo o sol vai nascer. Você sabe o que quer dizer.

- Que eu vou voltar a esperar por outra noite como essa

Ela ficou quieta, mas ambos sabiam que aquilo era verdade.

- Que maldição! Por que não podemos simplesmente continuar juntos? Por que não posso simplesmente me lembrar disso? Me lembrar de você!

            O silêncio foi sua única resposta. Os dedos dela corriam sobre seu braço. A claridade começava a delinear o não-espaço ao redor.

            - Deve existir alguma razão, meu amor. Deve existir algum motivo para os deuses fazerem isso conosco. Para que permitam que nos encontremos e nos amemos nos sonhos. E quando acordamos, é como se tudo não fosse somente mais um sonho.

            Ele entendia exatamente aquilo. Após Os Sonhos sempre acordava mais vivo, com paz e tranqüilidade na alma. Mas também havia um vazio, uma falta pequena e avassaladora de algo que não conseguia apreender e que somente sonhando compreendia. Quando estava com ela, nada mais importava. Nada mais existia. Eles sempre se encontravam em lugar algum, pois não importava. E, além disso, era um sonho, bastava desejar algo e, lá estava.

            Porém, aquilo também trazia sofrimento. Pois se na “vida real” ele não lembrava dos sonhos, nos sonhos ele se lembrava da vida vazia e medíocre que vivia. Nunca conseguira realmente compreender para o que é que existia. Mas estando ali, sentindo aquele corpo (que ele sabia que não sentia realmente) próximo de si, as perguntas perdiam importância. Só ela é que importava. E dentro daqueles olhos de amora, ele podia ver que seus sentimentos eram correspondidos e igualmente sentidos.

            E era assim que, sempre, quando a claridade já começava a apagar os contornos de tudo e de ambos, ele entendia. E era sabendo disso que sempre dizia a última coisa a cada noite/dia.

            - Eu te amo.



Escrito por André às 00h16
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Belezas do efêmero


 

   Os dias estavam sendo difíceis. Provas, erros, cansaço. O ônibus lotado chacoalhando no sol.
   No ponto final, ele desceu e pegou seu caminho. Encarando o primeiro degrau da escadaria, respirou fundo, buscando energia. O sol forte punha pra fora seu suor. No meio do caminho, parou para comprar um cachorro-quente, seu quase almoço naquele momento em que sentia semi-vivo.
   Seus sentidos estavam embaçados mas, ainda assim, alguma coisa no som daqueles passos o fez se virar para olhar.
   Ela vinha descendo, distraída, na direção contrária. Os ombros estavam caídos, o olhar, distante. Pensamentos perdidos em algum ponto que o caminhar já havia deixado para trás.
   Quando estavam há poucos metros, ela levantou os olhos e os olhares se fixaram.
   Tudo ao redor deixou de existir por um instante. Naquela conexão improvável, tudo foi dito, sentido e compreendido.
   Um sorriso brotou naqueles lábios, como um vento suave no dia quente. Sem perceber a mudança, ele também sorriu de volta. Sua boca, suja de cachorro quente, fez com que ela sorrisse mais ainda. Tudo estava leve.
   E então, os passo, inexoráveis, afastaram seus olhares.
   Nenhum dos dois se virou para manter o contato. Mas os passos que se afastavam estavam mais confiantes e firmes, enquanto o peito que ficou respirou, pela primeira vez naquele dia.
   E a vida, como sempre, se-guia.



Escrito por André às 12h57
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Ar @ Monotonia

Parado eu penso
Pensando eu paro

A gota escorre
pelo vidro molhado

Aqui dentro
eu vou olhando

Lá fora
o mundo respirando



Escrito por André às 01h01
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Hoje recebi um email diferente.
Uma proposta para participar de outro blog. Não faço idéia de quem pode ter mandado aquilo e a idéia de um blog sobre a monotonia me parece um tanto... monotônica.

Mas pra não fugir da raia, já deixa minha contribuição por lá.
Se alguem quiser ver

http://absurdamentemonotono.blogspot.com/



Escrito por André às 00h08
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Fecham-se as portas. O som, apesar disso, vai subindo pouco a pouco.

   - Senhoras e senhores. Que a ordem se instaure. Eu declaro aberta mais uma reunião do clube da beleza efêmera, nesse lugar ao qual chegamos acompanhados pelo acaso. Que esse encontro com o acaso possa ser lembrado por ter passado. Vocês trouxeram suas oferendas?

O som aumenta.

   - Eu tenho algo - a voz soa jovem, com um frescor da primavera -
O cheiro era o dos minutos, pouco antes da chuva. A brisa fria indicava que a água não ia demorar a cair. Poucos andavam no meio da tarde. O céu estava dividido na guerra silenciosa. Os exércitos  de cinza marchavam sobre o azul. Os ventos os levavam mais e mais. Em minutos as nuvens venceriam e clamariam seu direito de tirar a cor de tudo. Tirar, lavar e trazer de volta. Ou pelo menos era isso o que parecia quando a luz atingiu o grau certo e a cor se fez no céu.
E nos poucos que ali caminhavam, um casal já senhor fez brilhar uma luz nova.
Ali, sob o arco-iris, ambos trocaram sentimentos mudos numa divisão de olhares entre o espetáculo celeste e o par de olhos que rapidamente se encontrou, levando cada um aquilo que havia apreendido.
Todo um entendimento de sensações, idéias, palavras e ações se passou naquela olhadela. As vozes não foram necessárias. Eles apenas cruzaram os dedos, apertaram as mãos e souberam. - a voz minguou lentamente, antes de retornar mais presente -
Isto é o que trago para vocês hoje.

O som diminui. A porta do trem se abre e mais uma reunião do efêmero é encerrada.



Escrito por André às 11h24
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Olho para as estrelas, tantas, tão pequenas
E elas me respondem o quão menor eu sou

Penso na vida delas por lá, em tudo que existe e eu nunca vou ver
Penso então em quanta coisa existe que ninguem nunca vai ver

O que sou eu dentro do universo?
Um grão na praia?
Um grão dentre todas as praias do mundo?
Como contar um tamanho maior que a medida?

Devo contar talvez as batidas do coração
Não as minhas, inconscientes, inconsequentes, mas as que causei

A batida que falhou de alguem que magoei
A batida que se acalmou daquele que escutei
A batida que se animou do amigo com quem ri
A batida acelerada do amor que vivi

E pensando nisso percebo que as estrelas não são bolas de gás, lá longe no céu que há.
Elas são corações, de outro tipo, de outro lugar
Que batem comigo no ritmo da luz que eu respiro ao luar.



Escrito por André às 19h10
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Sono sono
Sempre ele.

Eu não consigo escrever se não estiver com um mínimo de sono. Se não tiver um minimo de tempo sozinho comigo mesmo fazendo algo que gosto.
Será que eu preciso estar mais perto do sonho para escrever?
Será só o silêncio da noite que me ajuda a me escutar?
Será que eu vou logo dormir e vou parar de viajar??

Hmmmmmm....

Cenas dos próximos capítulos



Escrito por André às 03h27
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Era uma vez.
Mas acharam pouco, e por isso resolveram ser duas.
Da segunda pra terceira foi um pulo.
Da terceira pra quarta, nem um susto.
Outros números vieram mais.

E de tantas vezes a contar
já não se sabe onde vão dar.

Resolveram então mudar o verbo
e ao invés de deixar ser outra vez
eles agora resolveram ser de vez.
Alguém sabe o que esperar?



Escrito por André às 03h25
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.     meu coração de branco    .
.     é seu sorriso a brilhar     .


.     meu coração de verde     .
.     nos seus olhos mergulhar     .


.     meu coração azul     .
.     pro céu você me faz voar     .


.     meu coração vermelho     .
.     que é de tanto te apertar     .



Escrito por André às 03h17
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Pensamentos brancos
Idéias fracos, argumentos piores.

Cade as idéias de escrita? Cade a força das palavras pulando fora dos meus dedos?
Cade a força do coração?

Tudo tão bem. Tudo tão bom. Só falta a alegria na palma da mão.



Escrito por André às 01h01
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Cinza
De cima até embaixo, cinza

Os restos do fogo
de quando?
Da última noite?
Do último ano?
De outra vida?

Agora só brasas mornas
esperando pela chuva para uma última dança



Escrito por André às 00h55
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A vontade de escrever queima
Mas só consigo escrever sobre a vontade de queimar

Me ajuda?

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Ainda sinto o gosto queimando na garganta
Ou talvez fosse um cheiro.
Um cheiro quente, com vontade.

Depois do abraço, os corpos ficam distantes.
Mesmo no abraço falta alguma coisa.

Talvez seja o cheiro.
Olho ao redor e me pergunto se só eu estou sentindo isso.

Uma fogueira queima dentro de mim
Ou será fora?
Estarei sendo queimado por ser herege? Por ser feliz?
Ou talvez para ser feliz

Eu sigo o movimento
Me jogo de corpo para tentar escapar

Uma volta, duas voltas.
Jogo e puxo. Quase deixo escorregar

Grito no ritmo
Mas não escapo.

E tudo acaba no abraço.



Escrito por André às 12h36
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Som que bate no momento
Cheiro que escapa pelo vento
A pele que quer se encontrar

Será que só eu sinto isso?

Um olhar que esconde e disfarça
E o som que volta a atacar

Palavras que não dizem o que querem ser quando crescer
Tanta vida que fica por dizer

Desejo, vontade e vaidade
Sangue, suor e idade
Até onde vai sua própria liberdade?


------------------------------------------------------


Um abraço sincero
bem na ponta do verso
Pra que lado é mesmo que eu esterso?

Natural como a chuva
(quero uma rima de uva)
Luva que somos nós

Dedo e encaixe
Rio e foz
Um abraço que nos deixe a sós



Escrito por André às 01h49
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Ouço o mar ao fundo
Continuo. Forte.
Um som quase em silêncio. Um som que não incomoda
Que se molda a realidade, ao que existe ao redor.

Como é bom quando conseguimos ser assim também.
Nem tão excessivos que incomodamos, nem tão discretos que não sejamos notados.
Coisa rara e díficil

Por que será tão difícil ser simplesmente a você?
Por que essa vontade estranha de querer ser o que imaginamos que os outros querem que sejemos?
O que o mundo quer que sejemos.

E que foi que disse que o mundo quer alguma coisa?
Que o mundo sabe alguma coisa?

O mundo sabe tanto da minha vida quanto eu sei da célula número 7.567.953 no meu dedinho do pé esquerdo.

.... será que minhas células sentem vontade de me mandar pra pqp assim com eu sinto vontade de fazer com o mundo de vez em quando???
Que crise existencial!

Pior que é provavel que sintam... com tanta porcaria que eu como.

O que leva a pensar.... o que será que o mundo andou comendo??

 


Credo... alguém corta o açucar da criança que ele ta viajando!

Saco... lá se foi meu texto narrativo virar entrada de diário. =P

Anyway, como é bom quando podemos ser nós mesmo não?
Sem máscaras, sem vergonhas.
Só a verdade. A nossa verdade, de cada um.
É raro estar com pessoas assim. Que sabemos que não vão nos julgar.
Mais do que isso, que sabemos que vão olhar e não ver nada além de nós mesmo. Nenhuma expectativa. Nada entendido errado.
Cordas vibrando no mesmo harmônico.

Fica aqui minha homenagem a essas pessoas, poucas e muito queridas, que mesmo não fazendo parte do meu dia a dia, conseguem ser parte tão boa da minha vida.



Escrito por André às 01h37
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O sorriso sem graça no rosto de ambos.
As bocas se repetem em palavras de mentes que não encontram assuntos.
Aquele desconforto suave no ar.
De onde será que vem isso?

Onde foram parar as horas de conversas?
Onde se esconderam todas as coisas que já os fizeram rir juntos?
Eu me pergunto....

Mas eu mesmo já dou a resposta.
Ainda está tudo ali. Mas outra coisa também.
As palavras que não querem ser ditas.
As verdades que o coração sente, mas insiste em esconder.
Escondidas como dedos que se buscam no escuro do cinema
Como aquele olhar que queremos dar, mas evitamos por medo que ele conte mais do que deve.

Tudo pesa no ar.
Mas é um peso bom.

Um piscar de seus olhos me diz que aquele não é o momento.
Um movimento de um braço meu concorda com você.
Mais um última vez nos abraçamos. E todos os silêncios desaparecem.
O peso no ar, estranho em todo o tempo, encontra seu lugar no meio dos braços e se acomoda.
Todo o resto e todo o mundo deixam de existir enquanto dois corpos tem apenas uma sombra.

A espera virá, sabemos.
Mas o prêmio no fim do tunel traz animo pra continuar.
Continuar vivendo pro dia de deixar de sonhar.



Escrito por André às 23h04
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