Ele abriu a cortina e olhou pela janela. A noite estava escura mas o prédio a sua frente tinha muitas janelas claras. Poderia cada uma delas ser alguém como ele? Sentado na noite, sentindo o sono vencendo a batalha, sabendo que deveria se render, mas ainda assim lutando?

Certas coisas não fazem sentido mas ainda assim são necessárias.

Tentava encontrar a música certa, mas a danada insistia em se esquivar. “Eu sei que você está por ai, apareça!” pensou.

Um verso aqui, uma rima ali, um tema acolá. Parecia que nada dava a liga que ele esperava. Faltava alguma coisa. Talvez uma pitada de céu azul e sombra fresca... talvez um pouco mais de luar e estrelas.

Saiu para caminhar. Sem pensar no que fazia. Seu corpo o levava pelas ruas vazias tão conhecidas e ele se sentia em casa. Por um caminho um pouco maior do que o normal, acabou chegando à praia.

As ondas estavam batendo forte naquela noite. A lua fraca não iluminava bem. Mas mesmo assim ele sentiu uma necessidade grande de entrar. Tirou a camisa, juntou ao chinelo e entrou.

A primeira onda o pegou de surpresa, com seus olhos ainda se acostumando. O mar estava forte mesmo, mas ele estava acostumado com aquilo.
Soltou o corpo e deixou o mar bater, sentindo o momento exato de voltar os pés para baixo, dar empuxo e voltar à superfície.

Ficou surpreso em ver como ainda estava longe da praia. Teria pegado uma onda para o lado errado? Teria pegado uma corrente de retorno tão forte assim?

Por um momento pensou em se soltar e ver até onde o mar iria levá-lo. Mas sabia que não era o mais sábio e começou a nadar.

Braço, braço, respira.
Braço, braço, respira.
Braço, onda, respira.

Como em uma valsa, pegou o ritmo das ondas, da respiração e dos braços e seguiu nadando. Sua mente também encontrou seu próprio estado de deriva, buscando pelo verso que estava procurando a noite toda.

Mas, por mais que buscasse, ele só achava.... areia?!

Saiu do mar e voltou para casa.
Aquela não era uma noite de respostas.

O sonho insiste em vir na hora errada.
Pensando nisso ele percebeu que a hora era a mesma. E que para poder ouvi-ló seria necessário enganar o sono. Por isso toda noite ele se perdia em sonhos escritos por outras pessoas.
E após cada sonho de outrem ele era presenteado c a possiilidade de escrever o seu próprio
Seria essa troca cara?

Eles se reconheceram ao primeiro olhar. Ele pensou que já a tinha visto fazendo gols na tv. Ela pensou que já tinha visto ele fazendo propaganda de cremes na tv
Ou será que era o contrário?
Os dois estavam errados
Aquela sensação não vinha da tv, da propaganda, do dia a dia.
Ate pq ela nunca assistira a um jogo sequer. E ele não costumava assistir aos canais onde ela aparecia.
É engradado que nenhum deles tenha pensado nos sonhos. E por não pensarem (no caminho certo), por pensarem demais, deixaram de falar o simples que suas almas pediam.
E nunca mais se encontraram.

Engraçado como pequenas coisas podem gerar grandes efeitos. Comprei um livro novo do Neil Gaiman (Coisas Frágeis 2) e, como sempre acontece, eu fiquei com vontade de escrever. O simples fato de ler um conto dele de duas páginas faz acordar o escritor dentro de mim.
O texto abaixo e o anterior foram escritos na sequência à leitura de dois contos desse livro, ainda no metro e depois no ônibus. Comecei também um terceiro, mas acabei chegando ao destino antes de terminá-lo. Assim que o espírito de escrever aparecer de novo, eu o posto aqui.

Abraços!

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Eu chego em casa faminto. O embrulho está sobre a mesa me esperando. O brilho de meus olhos reflete a tampa de vidro e por um momento sou ofuscado.

O plástico do embrulho não tem tempero. Só mais um como tantos outros voandos em correios por ai. É o que está dentro que importa.

Passo meus dedos lentamente pela capa. Suave e quente como minha última garota.

Abro e leio o título.
Lentamente leio as duas orelhas e a dedicatória. Observo cada palavra.
No índice, eu paro. Testo o gosto de cada nome em meus lábios até escolher um.

E só então eu começo a devorar as palavras, sílaba a sílaba, até que todas as páginas ficam em branco.

Ele a olha no metro. Não repara na pequena mancha vermelha próxima ao colarinho.

Seus olhos são lindos como um dia de inverno. Neve nova sobre o campo. Quando ela o olha de volta é como mergulhar num lago gelado em um dia quente de verão. Um prazer frio. Mas é o sorriso que o prende.

Desconectado de sua postura, ela sorri. Cada dente o ameaça com um olhar diferente, mas a composição é bela. Essa é a única coisa que ele percebe.
E também a última.



Sua estação chega e passa.



Ele tropeça por escadas até a rua.



Quadras depois, entra numa casa que não é a sua.
Deixa a carteira e as chaves sobre a mesa que nunca viu.
Deita na cama
                        e espera.



O mundo já está escuro e a porta se abre. Ele vê o sorriso belo. E conta cada uma das pontas que estão lá enquanto a cama se aproxima dela.

Seu último ato é uma respiração funda, que não chega a sair. E, num instante de volúpia, outra gota vermelha se junta à que já estava na gola da garota.

Você percebe que está chegando pelo silêncio. Não lá fora mas do lado de dentro.
Na alma.

O sol se pondo é só um detalhe a mais na pintura composta por todos os sentidos.
Ao longo da viagem, cada um dos problemas vai se perdendo.

Km56 - deixei aquele relatório pra entregar
km137 - lá se vai a preocupação com o programa que não funciona
km245 - solto pela janela aquela cobrança do chefe
km373 - qual era mesmo o problema??

Eu sei que todos vão estar de volta na estrada, passageiros que vou pegar durante a viagem para casa para pesar no ombro outra vez.
Mas de qualquer forma, é muito bom poder relaxar e se sentir em casa.

Hoje ele está mais forte.
Você consegue senti-lo?
Preso. Vibrando. Procurando um caminho para se libertar.

 

Não sei o que foi que o deixou assim, ou até mesmo o que o causou.
Importa?
Alguém se importa com o por que existe?
Perda de tempo.

 

Meu estomago treme.
Não vejo outro caminho a não ser a liberdade. E também não vejo o caminho que leva até lá.

 

O grito cresce.
As partículas tremem ao meu redor.
Minha parede pouco a pouco começa a esfarelar, mostrando o mar do lado de fora. Deixando a chuva passar para o lado de dentro.

 

A vibração se espalha. Atinge o chão. Atinge o céu.
Tudo começa a vibrar e desmoronar.
E por trás de tudo... o que será aquilo?
O nada?

 

Não sei. Mas sei que logo, conforme a realidade vai desmoronando cada vez mais rápido, vou descobrir o que fica depois de além.

Como escrever sinceramente num espaço tão antigo. Como falar exatamente a verdade sabendo que outros o leem?

Me expor me enfraquece? Ou será que fortalece?

Devo começar do zero? Parar de escrever neste espaço tão querido?

"Torna-te a ti mesmo."

Não posso pedir que me devolvam a chave que eu entreguei com o coração.
Sendo assim, fique a vontade. Puxe uma cadeira, sente no chão, fique em pé, voe.

Mas lembre-se que esse espaço ainda é meu. Quando achar que estou falando com você, saiba que não estou. Quando achar que não tem nada a ver, ai sem será sobre você.
E se quiser responder, os caminhos ainda são os mesmos e todos levam à minha Roma.

Sejam bem vindos aos meus sonhos que não mais vivem num papel.

Vejo a chuva caindo.
Cada pingo, solitário e companheiro, descendo rumo a nós
Quase ouço seus sons, morrendo na noite.

Na rua, quase ninguém passa.

Uma janela passa.
Um carro passa.
Até um morcego passa.
Mas nenhuma alma humana cruza meu caminho.

Tenho espaço para pensar. Todo o espaço da rua é meu para extender meus pensamentos.
Gosto do mundo assim. Sem outras vozes invadindo meu raciocínio. Sem outros desejos voando pelo ar, confrontando invisivelmente os meus.

Nesses momentos a única coisa que me limita é o céu.
O céu e a distância até seu coração que bate.

Volto a ouvir cada mínimo pingo que se bate contra minha jaqueta e desejo a todos uma boa viagem.

Cada dia é mais um dia. Um dia a menos. O mesmo dia.
Eu vejo o sol que vem e vai. Vejo as sombras nascendo, crescendo, dominando.
Para depois voltarem a morrer.


Na escada os mesmo degraus passam por mim, perguntam sobre meu dia.

“Tudo bem 27.”
“Correndo praquela reunião 36.”
“Você cresceu 58?”


E vejo você.
Que passa. Vem. Vai novamente. Seu nome pisca pra mim.

E eu quero te matar.

Eu quero te amar.

Eu quero teu olhar. Ouvir seu corpo respirar.
Eu quero sua boca e seu abraço. Seu sorriso e seu suor.
E o seu braço e o meu braço dados, nossos passos no luar.


Quero a careta boba pra mostrar pra esse dia.
Quero a palavra tola que traz riso e brisa fria.
Quero a piada sem graça pra trazer mais alegria.
E todo o sono de uma noite mal dormida.


Quero seu erro e seu defeito
E você tentando me dar um jeito.

Quero você e só você.
Quero sua vida, toda minha

Te amo linda.

Coisas pequenas doem
Um pequeno corte
Uma pequena batida
Uma única ausência

Eu sinto esse cheiro no ar. Ele é bom. Um cheiro novo e diferente.
Um cheiro velho e vazio.

Um novo que se repente. Um diferente que já conheci a fundo.

A caminhada agora tem o ritmo que eu quiser. Mas a minha praia noturna continua vazia.

Sonolencia que sonda o som suave e sussurado por seus sentidos saudosos.
Safada de saia, santa de sonsa, sapeca sapeca
Sinta o silêncio chamando seus sonhos.
Sinta sem sentidos o sol subindo e subindo
Sempre

“A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida.”

 

Eu só posso concordar.

E engolir essa vontade de matar....

 

 

O menino sentou numa das pedras e olhou. Ao longe, o barco partia lentamente, carregado pelos ventos.
Ele acenou, incerto se alguem veria e mesmo se haveria alguem para ver. Não importava. O aceno era para ele.
Ali ia embora um grande motivo de cor e alegria de sua vida recente.
Aventuras vividas, perigos enfrentados, tesouros desencavados. Mesmo com os problemas e feridas que vez por outra surgiam, valera a pena.
Ainda assim o barco partia.
O menino se esforçou, mas uma lágrima esperta conseguiu escapar.
Olhou rápido ao redor, mas não havia mais ninguem, no pier ou na praia. Todo aquele espaço vasto, toda aquela amplidão, contrastavam com seu interior. Ou antes, faziam eco naquele vazio de almas.
Ele sabia que no dia seguinte teria que crescer, ser o capitão de seus novos homens em terra, seguir com seu caminho escolhido.
Mas naquela tarde tudo o que queria era chorar como um garoto novamente.

Cansado do telefone que não atende
Do amigo que não entende
Da falta do que não se vende

Cansado do sono que não vem
Da vida passando que nem trem
E até de mim também

Cansado de olhar e não enxergar
Da biopsia que não quer sarar
De todo esse tempo para pensar


Noite mal dormida
Vida meio vivida
Alguém me traz um bebida?

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